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domingo, 7 de fevereiro de 2010

FÓRMULA OU NÃO FÓRMULA, eis a questão


Depois de tanto tempo sem escrever, volto com o propósito de provocar reflexões sobre o teatro que temos feito (ou simplesmente visto). Nesse espaço não costumo escrever sobre todos os espetáculos que assisto por alguns motivos, mas sem dúvidas o principal é que há “coisas” sobre as quais nem vale a pena comentar. Como meu objetivo por aqui não é o de me tornar mais um daqueles milhares de chatos do teatro, prefiro partir de trabalhos consistentes para contribuir com novas formas de pensar teatro.



Talvez possamos dividir o teatro em duas linhas: o teatro comercial, que visa bilheteria pomposa, que atrai o patrocínio privado com atores de destaque da mídia, que usa e abusa de fórmulas que dão certo (ou deram um dia); além do teatro de pesquisa, dito experimental, que geralmente (mas não necessariamente) é feito por companhias que muitas vezes vivem processos muito longos de criação de seus espetáculos.



Mas convenhamos que todo rótulo é perigoso, para não dizer preconceituoso ou até mesmo burro. Já que mesmo o tal teatro de pesquisa, precisa garantir seu sustento através de venda de sessões ou de patrocínios, ou o dito comercial, pode surpreender com um trabalho sério e de qualidade. A questão que aqui coloco não é essa, mas sim o uso de fórmulas.



Quando perguntamos para pessoas que não têm ligação com as artes se gostam de cinema, a maioria absoluta diz que gosta, independentemente de ir conferir muito ou pouco as produções para as telonas. Já quando a questão se volta para o teatro, é comum ouvir “gosto, mas faz muito tempo que não vou” ou “gosto, mas é muito caro”. Não sei se estou ficando louco, mas ultimamente tenho percebido com maior frequência uma outra resposta: “Não gosto de teatro”.



Se pensarmos friamente, o teatro é o pai do cinema e da televisão. As pessoas gostam de cinema e assistem televisão todos os dias. Seria o caso de aposentar o teatro? Talvez essa tenha sido a pergunta mais imbecil que já postei nesse blog. O teatro pode ter gerado o cinema e a televisão, mas é uma outra linguagem. Nele tudo é ao vivo. O ator coloca sua cara a bater, não há uma câmera para definir o que o público precisa ver.



Preciso deixar claro que não estou dizendo que teatro seja melhor que cinema ou televisão. Aprendi a respeitar todas as linguagens, incluindo a televisão que vive quase exclusivamente do lucro (será que se pode exigir um altíssimo poder de criação, ou um estudo profundo de um papel, a um ator que grava diariamente milhares de cenas diferentes e que não conhece todo o teor daquela obra, já que é aberta e varia de acordo com a preferência do público? seria menos digno o trabalho desse profissional do que se estivesse no cinema ou no teatro, que via de regra, permitem mais tempo para um estudo mais longo?).



Minha proposta aqui é a de entender melhor a função do teatro hoje. E aí vou entrar num ramo até um pouco perigoso: o naturalismo / realismo. Será que ainda há espaço para o naturalismo/ realismo no teatro a partir de uma estrutura convencional à italiana? Creio que sim, o que pode ser comprovado por meio dos espetáculos ditos comerciais que ainda são enorme sucesso de público (um exemplo clássico é TRAIR E COÇAR É SÓ COMEÇAR, que permanece em cartaz há mais de 20 anos). Mas a câmera pode, espacialmente, contar uma história sobre diferentes ângulos. Na verdade, TV e cinema utilizam várias câmeras. E no teatro? Quem define o que quer ver não é o próprio público? Será que o poder de dispersão não aumenta infinitamente?



Ainda no Séc XIX, Stanislavski e seu Teatro de Arte de Moscou estouraram com o realismo de Tchekhov. Mas ele próprio, anos depois, começou a verter sua pesquisa por outros caminhos. Seria ele um visionário ou simplesmente alguém que já entendia que o teatro tem que caminhar de acordo com seu tempo? Já que cinema e TV fazem tão bem naturalismo e realismo, que tal experimentar outras coisas no teatro?



A partir de tudo isso, chego finalmente ao belo espetáculo que assisti ontem: O PATO SELVAGEM. O texto é uma adaptação pela Cia Les Commediens Tropicales do realista Henrik Ibsen, o autor norueguês mais montado no mundo depois de Shakespeare. Uma visão atual, com direito a projeções, incorporação da internet, animações etc, retratando uma história escrita há mais de 100 anos.



Plástica e tecnicamente, o referido espetáculo é maravilhoso. O hoje é retratado através do excesso de informações, o que gera uma certa poluição e desconforto. Opa: falamos exatamente de pontos que a tal “fórmula consagrada” tanto despreza. Mas será que experimentar significa fazer o oposto? Experimentar significa fazer o público sair com a sensação de que não entendeu?



Como colocar em prática todo o poder criativo de artistas que pesquisam seriamente novas formas de fazer teatro de modo a simplesmente tocar o público (que já não vai muito ao teatro mesmo)? O teatro é vivo e conta com um elemento fundamental: a presença de uma plateia, ou seja, há uma troca explícita, por isso é preciso não apenas falar, mas principalmente criar uma sensibilidade para a escuta.



Um espetáculo como esse vale a pena ser assistido. Eu diria que poderia ser desenvolvido um canal de comunicação maior com o público, para que esse não saia de lá com a sensação de que não é inteligente suficiente para entender o que aqueles artistas tão criativos e maravilhosos quiseram dizer. No entanto, ainda assim, ele provoca muitas reflexões.



O PATO SELVAGEM. Texto: Henrik Ibsen. Tradução e adaptação: Cia Les Commediens Tropicales. Texto Final: Carlos Canhameiro. Encenação: Cia Les Commediens Tropicales. Atores: Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez, Jonas Golfeto, Michele Navarro, Paula Mirhan, Weber Fonseca. Cenografia: Ricardo Palmieri, José Valdir. Figurinos: Juliana Roso. Iluminação: Daniel Gonzalez. Vídeo Mapping e VideoArt: Eduardo Messias, Mateus Knelsen, Ricardo Palmieri. Pensamento Corporal: Tica Lemos. Operador de Luz: Rodrigo Bianchini. Assistência Geral: Tetembua Dandara. Produtor: Carlos Canhameiro. Foto de divulgação, extraída do site: http://www.guiadasemana.com.br/Sao_Paulo/Artes_e_Teatro/Evento/O_Pato_Selvagem.aspx?id=60515 . Em cartaz no SESC SANTANA (Av. Luiz Dumont Villares, 579 - Santana, São Paulo / SP. Fone: (11) 2971-8700) aos sábados às 21h e aos domingos às 19h30m até 21/02/2010.

Trecho do espetáculo no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=29k58Lq7Ieo